quarta-feira, 13 de março de 2013

Duas histórias e muito sentimento


A inclusão social hoje é um tema muito debatido no Brasil. A acessibilidade nas ruas tem crescido gradualmente, o tema na escola tem se inserido com ênfases maiores. Esquecemos muitas vezes, porém, que nem sempre foi assim: somente agora é que o mundo está sendo aberto aos deficientes físicos e mentais, e a história foi dura para com eles.


Dorinha, a personagem cega de Maurício de Souza

Desde a antiguidade, a exclusão social dos deficientes era muito praticada. Na Grécia antiga, por exemplo, bebês deficientes eram abandonados e atirados de penhascos. Algum tipo de compreensão aos problemas das pessoas com deficiência começou a surgir entre os séculos XVIII e XIX, sendo que em 1981 é que o assunto tomou destaque no mundo moderno, quando a ONU (Organização das Nações Unidas) criou um decreto tornando tal ano como o Ano Internacional das Pessoas Portadoras de Deficiências (AIPPD). No Brasil, o processo deu-se lentamente, mas hoje existe toda uma legislação regulatória dos portadores de necessidades especiais, o que garante que deficientes sejam inseridos no mercado de trabalho, por exemplo. Porém, ainda não é o suficiente, como é da opinião de muitos especialistas na área.

Generosa Monteiro Ferraz é especialista na área, e minha amiga. As conversas que tivemos me motivaram a escrever esse texto – e a prestar mais atenção a esse assunto. Ela é Pedagoga Especializada nas áreas da Deficiência Auditiva/Surdez, Deficiência Mental e Pós-Graduada em Múltipla Deficiência com ênfase na Surdocegueira. Elabora e acompanha Projetos em atenção às necessidades educacionais especiais, na perspectiva da Educação Inclusiva.

a libras - língua brasileira de sinais

Em entrevista a ela, antes de perguntar sobre o cenário brasileiro na inclusão, quis conhecer um pouco mais de sua história de vida e trabalho. Uma pergunta simples, uma resposta cheia de vivência, experiência e emoção. A revelação de ter sido parte das conquistas no campo da inclusão social nas escolas brasileiras.

Eu: Em que momento da sua vida você começou a se envolver com as necessidades educacionais especiais? Como isso aconteceu?

Generosa: Refletir sobre as escolhas que marcaram toda uma vida. Lá... muito tempo atrás, em 1970. É desde aí que surge a minha paixão pelos alunos que apresentavam deficiência auditiva. À época, a formação específica para se trabalhar com alunos com deficiência era realizada após o "curso normal" que formava professores. Na especialização para alunos deficientes auditivos (esta era a terminologia usada à época) me realizava no trabalho com esses alunos. Lembro que o meu trabalho era particularizado, aluno a aluno. Já os considerava potencialmente diferentes, o que levava a um trabalho muito singular com cada um. A paixão, muita paixão, desafios a enfrentar, muitos desafios. Lembro agora! A primeira escola pública a qual me oportunizou a revelação desse grande amor por alunos muito excluídos. Lembro sim! A sala no sótão, o recreio proposto em horário diferente, os equipamentos vindos da Holanda "guardados" no almoxarifado. As conquistas começaram a acontecer como gota caindo em poço fundo. O pacto com a comunidade, com o padre, com os órgãos superiores de toda ordem e lugar. O baile na comunidade para angariar fundos para instalar os equipamentos de 1ª geração. Desde aí, as possibilidades de experiência profissional na área foram se ampliando. O 1º curso de graduação para formação de professores de excepcionais na área da deficiência mental, como assim se chamava. Paralelamente, tracei meu trabalho na rede comum (regular) de ensino, e via a importância de contextualizar a aprendizagem com alunos considerados "normais". Experiências acrescidas com o trabalho oportunizado na Escola Vocacional Luis Antonio Machado, escola particular, também regular – mas diferente no sentido de se direcionar para alunos filhos de pais que já percebiam a necessidade de uma escola em que refletir, tornar-se crítico e responsável era a missão. A realização de um grande sonho, trabalhar na Helen Keller, à época única escola para alunos surdos na rede municipal  de São Paulo. O privilégio de fundar uma escola para surdos, a Escola Municipal Vera Lucia Aparecida Ribeiro, em 05 de outubro de 1988! Um dos maiores desafios da minha vida, onde a força parceira com os pais, funcionários e professores apaixonados, instigantes e revolucionários possibilitou a formação de tantos, tantos alunos. Bem, um percurso em expansão, um aprendizado contínuo. Novas portas,  trabalho ampliado com alunos que apresentavam NEE (Necessidades Educativas Especiais) na região. Passos à frente, mais conquistas oportunizadas no trabalho junto aos órgãos que sistematizam as questões na educação especial...

Eu: Com uma trajetória tão batalhada e bonita, sobra pouco a dizer. Como você mesma vivenciou, a inclusão social sofreu uma árdua trajetória pra chegar onde hoje está e pra conseguir tudo o que já conseguiu. Você acha que atingimos um estágio bom, agora?

Generosa: Não. Temos as leis nas letras, mas na prática precisamos avançar, e muito. Para realmente considerarmos uma escola inclusiva, esta "escola inclusiva" tem que estar aberta e predisposta a toda diferença. Estamos ainda tendo que justificar demais a inclusão de alunos com suas diferenças. Se insisto no paradigma da inclusão, certamente é porque a exclusão persiste. Não há necessidade de se criar mais leis, elas estão aí postas. Há que se pensar com seriedade e compromisso numa escola para todos. Há que se mudar valores, atitudes que justifiquem ver cada ser humano na sua singularidade, na sua diferença, nas suas possibilidades e nas suas limitações. O foco não deve recair na deficiência, mas na dimensão das potencialidades e possibilidades funcionais. Na verdade, se oferecemos ferramentas a cada pessoa em atenção à sua necessidade singular, o foco recai sobre todas as possibilidades. E, hoje, ainda não oferecemos as ferramentas necessárias para as pessoas com deficiência.

o braile

Como se fosse pouco, Generosa ainda me passou o contato de Luci Garcia de Miranda, primeira mãe a matricular seu filho na escola fundada por Generosa. “Grande pessoa, ela me inspirou, me moveu, em razão do Danilo”, nas palavras de Generosa. Em contato com a Luci, pude entender um pouco mais do que é a dor da exclusão:

“Falar sobre a Generosa Monteiro Ferraz, para mim, é um prazer e um orgulho de ter tido a oportunidade de conhecê-la e trabalhado junto dela. Uma pessoa maravilhosa tanto no pessoal como no profissional, admirada por todos que puderam estar ao seu lado.

Em agosto de 1988 eu estava procurando uma escola para surdos, pois meu filho contraiu a meningite bacteriana, cuja sequela foi perda auditiva profunda bilateral. Ele tinha 2 anos e um mês quando aconteceu, em outubro de 1987, e nossas vidas mudaram e tomaram caminhos totalmente desconhecidos por mim e pelos meus familiares. Soube que iriam inaugurar uma escola em Pirituba, na zona oeste de São Paulo, e então fui até a unidade  escolar. Para mim foi um grande impacto, pois meu filho estava em uma escola particular com boa estrutura... Além da perda auditiva, meu filho fez fisioterapia por um ano, pois perdeu toda a coordenação motora. Pra se ter uma ideia, ele tomava leite com conta gotas, pois perdeu até a deglutição. Foi marcante essa etapa, mas apesar das condições precárias da escola, foi acolhida com muito amor e carinho. O Danilo foi o primeiro aluno desta unidade de muitos, muitas centenas de alunos que nestes anos passaram por lá, e posso dizer que a Geni (assim como eu a chamo), foi uma guerreira. Ela, apesar de todas as dificuldades, acreditava no seu trabalho, que a criança surda tinha a capacidade de viver com independência e feliz, e a sua linha de trabalho era a estimulação da fala e audição.

Para mim, aceitar a condição de meu filho era muito difícil. Deus foi maior e não deixou que nada de pior acontecesse, pois estava muito desesperada, e num dia que estava sentada na escada da escola chorando compulsivamente a Geni sentou-se ao meu lado, segurou a minha mão e disse:Luci, se você não aceitar seu filho como Deus lhe deixou, ele nunca será feliz, pois ele também nunca se aceitará e será uma pessoa triste para o resto da vida.’

Fui para casa refletindo e entendi que não tinha volta, e tinha que mudar minha maneira de agir e passar a ele toda a confiança. Ele tinha a mim como espelho, e foi assim que tudo mudou. Chorei, sim, muitas vezes, não nego, mas fui me acalmando desde que me propus a trabalhar como voluntária na escola, com incentivo da Geni. Juntamente com outras mães, pintamos a escola, ajudávamos nas refeições, na limpeza e outros serviços, e uma dava força uma para outra. Ajudava também na secretaria, e cada vez mais me apaixonava pelo que estava fazendo. Em 1989 ela me indicou para um cargo de Auxiliar de Secretaria, e trabalhei nesta unidade escolar até 2003.
A Geni construiu um lar para centenas de alunos e familiares tão perdidos como eu, um lugar abençoado por Deus e dirigido por uma pessoa tão humana e convicta de seus ideais, lutadora. Meu filho sofreu muito depois de sair da escola, pois teve que ir para uma escola do Estado de São Paulo fazer o Ensino Médio e lá não pode ter o acompanhamento de professores especializados. Hoje ele tem o ensino superior no curso de Logística na Faculdade Estácio de Sá, na Vila dos Remédios, sua escrita é maravilhosa, sua oralização muito compreensiva. Trabalha em uma empresa conceituada na sua área, é um homem feliz e seguro de sua meta, responsável, independente e íntegro. Meu orgulho.”

Termino o texto por aqui. Não acrescentarei mais nenhuma reflexão ou conclusão. Deixo isso a encargo do leitor, e aproveito pra deixar um tempo pra sentir e absorver tanta história.



Fontes:



Por Gabriel Falcini

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